Jogadoras sem receber salários já é realidade no futebol brasileiro

Jogadoras sem receber salários já é realidade no futebol brasileiro

20 de abril de 2020 0 Por Jogando Com Elas

(Foto: Reprodução / Veja)

 

Casos de atletas do Audax e Santos Dumont foram expostos.

 

O que já havia sido alertado pela Federação Internacional dos Jogadores Profissionais de Futebol (FIFPro) na última semana, e que estava sendo tratado com receio por todos e todas que trabalham e acompanham o futebol feminino, está acontecendo. A pandemia de Covid-19, que chegou em um momento de ascensão da modalidade no Brasil, desestabilizou as finanças de muitos clubes, cancelou competições e atrapalhou a preparação das atletas – que sem as estruturas dadas por suas equipes, têm a parte física, técnica e tática prejudicadas. Não o bastante, agora, há denúncias de que mesmo após o repasse financeiro feito pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) aos times que disputam as séries A1 e A2 do Brasileirão Feminino, jogadoras estão sem receber salários. 

Em busca de manter o que vem falando desde o final de 2018, onde a CBF afirmou que daria mais atenção ao futebol feminino, ampliando o calendário da categoria, melhorando as condições de trabalho das atletas e, principalmente, investindo financeiramente, a entidade realizou um repasse de pouco mais de R$ 3 milhões para o futebol feminino, no início deste mês. A medida foi adotada para amenizar os impactos causados pela pandemia de Covid-19 no setor futebolístico do país, auxiliando os clubes das duas ligas profissionais da modalidade a manterem seus elencos. Contudo, alguns dias após o recebimento deste valor – R$ 120 mil para quem disputa a Série A1 e R$ 50 mil para os da Série A2 -, equipes estão sendo denunciadas por atletas, que os acusam de não pagarem corretamente seus salários.

Um dos casos divulgados é o do Grêmio Osasco Audax, equipe que disputa a Série A1 do Campeonato Brasileiro. Segundo relatos, o time paulista que recebeu R$ 120 mil reais da CBF – valor que garante o pagamento de até cinco meses da folha salarial de R$ 22 mil do grupo feminino -, utilizou o auxílio financeiro emergencial e excepcional para outros departamentos que não o de futebol feminino. Em defesa, o clube alega que não havia nenhuma exigência para que o valor fosse gasto unicamente com a modalidade, além de reforçar que, devido a pandemia, as finanças foram prejudicadas. 

(Foto: Jéssica Desiré / Reprodução Instagram)

 

Outro tema que também está no estudo da FIFPro, os contratos de curta duração e com a ausência de proteções básicas e direitos, além da falta de informações sobre a atual situação dos clubes em meio a pandemia, prejudicam as jogadoras. No caso do Audax, como não há registro de trabalho, as atletas que têm uma ajuda de custo de R$ 500 a R$ 1.000, em média, receberam no último dia 5 apenas metade dos vencimentos referente ao mês de março – valor pago em relação aos 16 dias de trabalho, já que o Brasileirão A1 parou na data de 16 de março. 

Sem muitas informações oficiais por parte do Audax, atletas alegam que, ao tentarem contato telefônico com dirigentes do clube, não são atendidas e nem mesmo respondidas por mensagens, e como não possuem contrato de trabalho assinado, todas as integrantes do elenco ficam sem respaldo jurídico. Além disso, em uma das poucas vezes que foram informadas, em março, as jogadoras souberam que enquanto as competições não forem retomadas, não iriam receber salários e que também estariam liberadas para negociar com outros times durante este período. 

Em outro caso onde o recurso disponibilizado pela entidade máxima do futebol brasileiro não foi cumprido corretamente, a capitã do Santos Dumont, equipe de Sergipe e que disputa a segunda divisão do campeonato nacional, denunciou o não recebimento de salários. Segundo Ligia Mantolvão, o valor recebido corresponde a duas folhas salariais do elenco, mas que o clube repassaria às atletas apenas uma ajuda de custo no valor de R$ 500, já que o restante do auxílio seria para estruturar a sede da equipe –  algo que as próprias jogadoras desconhecem. 

(Foto: Divulgação)

 

Para o FIFPro, o momento é de seguir acompanhando, inovando e intervindo no futebol feminino, para que, caso hajam novas situações adversas no futuro, já se tenha uma base sólida para enfrentá-las. Quanto ao repasse da CBF, o principal motivo para que problemas como os citados aconteçam, é que não há a necessidade de prestação de contas, assim como a ausência de um departamento específico voltado para a modalidade dentro da CBF. Sobre os clubes, é importante que mantenham os elencos, bem como o suporte para suas atletas.