O que 2018 trouxe às mulheres no esporte.

O que 2018 trouxe às mulheres no esporte.

29 de dezembro de 2018 Off Por Jogando Com Elas

(Foto: Reprodução YouTube)

 

No campo, nas arquibancadas ou empunhando câmeras e microfones, definitivamente vimos mais mulheres no futebol do que de costume.

O ano foi cheio de altos e baixos, mas sem dúvida, muitas barreiras erguidas pela distinção de gênero estão sendo rompidas. Pela primeira vez na história da televisão brasileira mulheres comandaram a transmissão de uma Copa do Mundo, por exemplo. Através de um projeto comandado por Vanessa Riche, o canal Fox Sports selecionou três narradoras para o Mundial: Isabelly Morais, Manuela Avena e Renata Silveira.

Não tínhamos narradoras na televisão brasileira desde o final dos anos 90, mas em março de 2018 Luciana Mariano voltou a narrar um jogo. Em setembro, foi a vez do Campeonato Paulista de Futebol Feminino. As finais e semifinais da competição tiveram transmissões 100% femininas, contando com Luciana na narração, Juliana Cabral e Gabriela Montesano nos comentários, e Marília Galvão na reportagem de campo, pelo canal ESPN.

Normalmente o espaço ocupados por mulheres nos programas de mesa redonda se restringe a ser uma figura feminina dentro de um alto padrão de beleza, que não participa efetivamente do debate esportivo. Essa é mais uma das características que vêm se reformulando. Temos mais mulheres cumprindo funções de comentaristas, opinando, analisando, debatendo profundamente o jogo e suas variáveis. Ana Thais Matos e Bárbara Coelho, do Sportv, são dois nomes de peso de uma safra de jornalistas que estão abrindo espaço na televisão.

 

#DeixaElaTrabalhar 

Em março, a repórter Renata de Medeiros foi agredida física e verbalmente por um torcedor dentro do estádio Beira Rio, enquanto trabalhava. Dois dias depois, Bruna Dealtry foi assediada por outro torcedor ao redor do estádio São Januário, também trabalhando. As duas situações foram filmadas e divulgadas na internet. Viralizaram e causaram indignação. Muitas outras repórteres se viram ali. Gandulas, árbitras, bandeirinhas, torcedoras… O movimento nas redes sociais foi o impulso para que cerca de 52 profissionais de comunicação relacionadas ao esporte lançassem, no dia 25 de março, o manifesto em formato de vídeo #DeixaElaTrabalhar. No mesmo dia, a repórter Kelly Costa foi ofendida dentro do estádio Passo D’areia, deixando nítido como precisamos abrir diálogos sobre as condições de trabalho das mulheres. O Deixa Ela Trabalhar teve grande repercussão nacional e ganhou o apoio de muita gente. É um marco no cenário do jornalismo esportivo brasileiro justamente por abrir portas para que outras mulheres deixem de aceitar caladas agressões e assédios, que acontecem com quem ousa trabalhar num espaço majoritariamente masculino. Cerca de 1 mês após a publicação do vídeo do manifesto, a jornalista esportiva Duda Streb passou por um constrangimento ao vivo na Rádio Gaúcha, vindo de um colega de mesa. Mesmo depois de 20 anos de carreira, tendo coberto Copa do Mundo, Mundial de Clubes, Copa América, Olimpíadas, Jogos Pan Americanos, Libertadores, Duda escutou do historiador Eduardo Bueno: “Quem é que convidou essa guria? Volta pra cozinha que é de onde tu nunca deveria ter saído”.

Situações como essa reforçam a necessidade de posicionamentos firmes contra o machismo que impede profissionais de exercerem suas funções apenas por serem mulheres.

 

Dentro de Campo

O Campeonato Brasileiro Feminino perdeu o único patrocinador que tinha, mas a CBF se prontificou a arcar com os gastos da competição, que a partir de 2019 vai contar com a categoria sub-18. O coordenador das competições femininas da CBF, Romeu Castro, afirmou que a introdução das categorias de base no calendário oficial servirá para orientar os clubes que ainda estão desenvolvendo seus departamentos femininos, em função da obrigatoriedade da Conmebol. O Campeonato Brasileiro Feminino Sub-18 deve ocorrer a partir de julho. 

Apesar do futebol feminino ainda ser tratado com descaso, o presidente da CBF, Coronel Nunes, afirmou que a Federação estuda o retorno da Copa do Brasil Feminina, que foi excluída em 2016 para que o Campeonato Brasileiro passasse a ser composto pelas sérias A1 e A2. Nunes disse que a entidade está buscando estimular as competições femininas para que o clubes se organizem com a modalidade.

 

Hexa

Aos 32 anos, Marta foi eleita pela sexta vez a melhor jogadora do mundo pela Fifa. Tanto entre as mulheres, quanto entre os homens, ela é a futebolista com o maior número de troféus da história.

 

2018 foi um ano intenso de luta para as mulheres ligadas ao futebol, e consequentemente de grandes realizações. Ao mesmo tempo que ainda temos comportamentos e declarações infelizes, está claro que as figuras femininas que vivem a paixão do futebol estão cada vez mais dispostas a acabar com a discriminação de gênero.