Paixão Rubro-Negra: O lado feminino da torcida do Flamengo.

Paixão Rubro-Negra: O lado feminino da torcida do Flamengo.

24 de julho de 2018 Off Por Jogando Com Elas

O “Passando Pra Elas” é uma coluna semanal, onde abrimos espaço para mulheres, sejam elas torcedoras, jornalistas ou jogadoras, compartilharem um relato ou experiência do seu papel no cenário esportivo. Nesta semana, convidamos Kiti Abreu, para falar um pouco sobre a sua relação com o Flamengo, seu time do coração, e com as ações promovidas pela torcida.

Confira o relato de Kiti:

“Minha paixão pelo Flamengo nasceu comigo literalmente. Futebol é algo que vem enraizado no brasileiro, desde pequena jogava bola na rua com minhas primas e meus amigos, jogava descalça e geralmente arrancava o “tampão” do dedão por isso. Meu pai, como bom flamenguista, foi o responsável por levar minha irmã e eu ao Maracanã pela primeira vez, e cá entre nós, quando se vai ao Maracanã, mesmo pequena, se sente a magia da torcida e do esporte.

Kiti em um jogo do time feminino do Flamengo (Foto: Arquivo Pessoal/Kiti Abreu)

Eu me associei a Raça Rubro Negra e no começo não entendia direito o que exatamente era uma torcida organizada, eu achava que bastava pagar a mensalidade e estar lá cantando todo jogo, mas me enganei. Com os anos aprendi a ideologia da torcida e acredite, é muito trabalho envolvido. Muitos julgam torcidas como marginais e outros termos pejorativos por conta das constantes brigas que acontecem ao longo de décadas, mas não podemos jamais avaliar só por isso, até porquê pessoas ruins se camuflam dentro de qualquer lugar e com a torcida não seria diferente.

Nós fazemos vários trabalhos não só em prol dos clubes, como festas e mosaicos lindos que estampam as capas dos jornais, mas sociais também, como campanhas de agasalhos, doação de sangue, dia das crianças, entre várias outras. Alguns anos atrás, levei a campanha do Outubro Rosa para a arquibancada. Fomos a primeira torcida a levar essa causa para os estádios. Eu, junto com mais 3 meninas, confeccionei a mão a primeira faixa do Outubro Rosa, que tinha 10 metros, depois ganhamos mais visibilidade e hoje em dia os clubes abraçam a campanha e vemos torcidas no Brasil inteiro fazer. Cada vez que vejo uma torcida ou clube fazendo algum gesto para essa campanha, eu choro de satisfação, pois é gratificante ver que cada vez mais eles abraçam a causa.

Como mulher de arquibancada, jamais permiti que alguém xingasse uma outra mulher na arquibancada, sempre defendia muitas vezes sem nem conhecer a menina em questão, porque acho que não podemos nos calar jamais diante de um assédio ou qualquer outro tipo de machismo, e comecei a ver que isso acontece por todo País. Na minha torcida mulher tem voz ativa, inclusive teve mulheres na fundação da mesma. Aqui posso tocar na bateria, tremular uma bandeira, estender a faixa oficial, coisa comum de qualquer torcedor, mas infelizmente a realidade é outra dentro de muitas torcidas pelo Brasil inteiro.

Kiti com a bandeira da torcida do Flamengo (Foto: Arquivo Pessoal/Kiti Abreu)

Tem torcidas que proíbem mulheres de chegar perto de um instrumento, de uma bandeira, pelo simples fato de ser mulher, e não é porque na minha torcida eu posso que eu não vou lutar por aquela mulher que na torcida dela não pode, e é aí que entra o movimento Mulheres de Arquibancada, que foi fundado através de conversas com diversas torcedoras de clubes e torcidas diferente.

De início seria uma conversa informal, para falar sobre o que a mulher passa nas arquibancadas, numa mesa de bar na Lapa, no Rio de Janeiro, só que a procura começou a ficar tão grande de torcedoras querendo participar que o bar ficou pequeno, então o Museu do Futebol do Pacaembu abriu as portas para receber o que se tornou o I Encontro Nacional De Mulheres de Arquibancada, onde ouvimos mais de 350 torcedoras dos quatro canto do Brasil contar suas histórias e de lá sistematizamos as propostas de mudança para que as arquibancadas pudessem deixar de ser um ambiente hostil para mulheres numa arquibancada igualitária.

Encaminhamos todas as propostas ouvidas no encontro para a Associação Nacional das Torcidas Organizadas do Brasil, a ANATORG, e de lá eles encaminharam para as torcidas, para que pudéssemos juntos trabalhar contra esse machismo existente nas arquibancadas, e é gratificante encontrar mulheres excepcionais nessa caminhada lado a lado, promovendo encontros regionais e estaduais, estreitando as relações, porque somos rivais em campo, mas juntas lutamos por uma arquibancada melhor pra todas, a luta de uma será sempre a luta da outra.

E para continuar o movimento e a luta, esperamos todas essas torcedoras no dia 11 de agosto, em Fortaleza, para o II Encontro Nacional de Mulheres de Arquibancada. O trabalho é árduo e cansativo, mas juntas somos mais fortes e não iremos nos calar jamais, pois cada vez que uma menina sofre assédio dói em todas nós, cada vez que uma mulher passa por um ato de machismo dói em todas nós.

Não queremos ser mais do que ninguém, apenas que nos respeitem de igual para igual, porque o futebol é a única coisa que une classes sociais, etnias, condições sexuais, gêneros e afins juntos num só amor, o amor incondicional por nossos clubes. Respeitem as Minas!”