Renata de Medeiros conta sobre os desafios e a luta das mulheres no meio esportivo.

Renata de Medeiros conta sobre os desafios e a luta das mulheres no meio esportivo.

11 de junho de 2018 Off Por Jogando Com Elas

Repórter conta sobre ocorrido no Estádio Beira-Rio e como surgiu a campanha #DeixaElaTrabalhar.

      

Renata de Medeiros em entrevista exclusiva. (Foto: João Cammardelli)

A luta das mulheres para acabar com as desigualdades e preconceitos é diária e, infelizmente, ainda ocorrem diversos casos de ofensas e agressões contra elas. No jornalismo, principalmente no esportivo, a situação é ainda mais complicada. Segundo dados da pesquisa feita pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, 92,3% das jornalistas que responderam a pesquisa afirmaram ter ouvido piadas machistas no ambiente de trabalho e 83,6% relataram já ter sofrido algum tipo de violência psicológica nas redações. Para tentar acabar com essa realidade, campanhas foram criadas, como a #DeixaElaTrabalhar, onde jornalistas do Brasil inteiro se juntaram para tentar pôr um fim nesse quadro. Uma das idealizadoras do projeto é a jornalista, repórter e produtora da Rádio Gaúcha, Renata de Medeiros, que concedeu entrevista exclusiva para o blog Jogando com Elas, e contou sobre a luta diária contra a discriminação sofrida pelas mulheres no futebol, seja em campo, na torcida ou nos bastidores.
      Renata foi vítima de agressões verbais e física que partiram de um torcedor durante a cobertura do clássico entre Inter e Grêmio, pelo Campeonato Gaúcho de 2018. “Ouvi gritos de sai daqui, puta, cadela”, relatou a repórter. Infelizmente essa violência e intolerância fazem parte do cotidiano das mulheres que trabalham e buscam espaço no meio esportivo. Segundo Renata, o futebol é apenas um reflexo de uma sociedade machista, ele não é o principal culpado e nem uma exceção, mas potencializa essa discriminação, principalmente dentro dos estádios. E para que esses casos não se repitam a campanha foi criada e segue buscando formas para conscientizar a sociedade dos problemas enfrentados na luta contra o machismo. “O #DeixaElaTrabalhar é um desabafo de todas as mulheres”, complementou.
      O descaso com as mulheres nos estádios não se limita somente a jornalistas, afinal muitas torcedoras sofrem com a intolerância e os assédios nas arquibancadas. Assim foi o caso do primeiro assédio registrado na Arena do Grêmio, no dia 02 de maio deste ano, onde uma torcedora gremista foi assediada por pelo menos quatro homens enquanto tentava se deslocar até sua cadeira para assistir a partida entre Grêmio e Cerro Porteño. Mas Renata afirma que esse não é o primeiro caso de violência envolvendo torcedores e, segundo ela, muitas outras mulheres já passaram por situações semelhantes em estádios de futebol, mas a negligência por parte das autoridades e dos clubes faz com que desistam de levar seus casos adiante.
      Quem também encara uma dura realidade no mundo futebolístico são as atletas brasileiras da modalidade, devido à falta de investimentos e visibilidade no país. Mesmo sendo uma potência no cenário mundial com a Seleção Brasileira e tendo grandes representantes pelo mundo, como Marta, eleita 5 vezes a melhor jogadora do mundo, o Brasil ainda peca quando o assunto trata de mulheres e futebol. A culpa muitas vezes é associada às grandes emissoras de televisão que são acusadas de não darem a devida atenção e pecarem tanto em cobertura como em transmissões dos campeonatos femininos pelo país. Mas para Renata, o assunto não deve seguir essa linha de raciocínio: “Os clubes são muito negligentes com o futebol feminino e tratam a modalidade como uma categoria amadora, geralmente cobram 1kg de alimento em troca da entrada aos jogos, a torcida também peca com as meninas, gostam muito de falar que isso ‘a Globo não mostra’, mas se não mostra, por que os estádios não estão lotados?”, questiona a repórter. Renata acredita que essa luta tenha reflexo nas gerações seguintes, pois trata-se de uma mudança lenta e que requer muita força de vontade. “Talvez se as coisas não mudarem com a conscientização, vão mudar através da lei”, concluiu.