“Se olharmos para o ramo que a narração feminina está tomando hoje, não tem como falar que este não foi um grande marco”, afirma Vivi Falconi.

“Se olharmos para o ramo que a narração feminina está tomando hoje, não tem como falar que este não foi um grande marco”, afirma Vivi Falconi.

17 de setembro de 2018 Off Por Jogando Com Elas

Primeira mulher a narrar um jogo de Champions League, Vivi Falconi conta como foi essa experiência na sua vida e como foi superar obstáculos para chegar em seu ápice.

Servindo como um símbolo e um marco no cenário feminino no mundo do futebol, a vencedora do programa “Narradora Lays”, que tem como objetivo dar espaço para as mulheres com talentos na narração esportiva, Vivi Falconi se destacou e foi contemplada com o prêmio e, junto com ele, veio uma grande responsabilidade e um momento que ficou eternizado em sua vida.

Vivi antes de narrar seu primeiro jogo de Liga dos Campeões (Foto: Arquivo Pessoal/Vivi Falconi)

Crescida em um ambiente tomado por meninos, Vivi sempre acreditava que tinha um futuro no futebol. Após perder seu pai logo aos 10 anos, buscou um propósito para seguir em frente e viu no esporte algo que poderia ser esse ponto de partida, já que sempre gostou e se interessou em trabalhar na área. Vivi encontrou na narração seu grande talento, inspirada pelo lendário Luciano do Vale, que foi um profissional admirado por Vivi desde sempre. “Eu cresci ouvindo Luciano do Vale e tenho ele como uma grande referência, não apenas pela forma como narrava as partidas, mas também pela maneira como ele tratava o esporte, ainda mais o futebol feminino. Foi um cara que sempre lutou pela modalidade e que sempre admirei muito”. Com uma importante referência, faltava apenas dar um próximo passo em sua caminhada e ter alguma oportunidade, e ela logo surgiu.

Em um curioso caso de receio em dar um passo adiante, acabou quase desistindo de participar do programa “Narradoras Lays” mas foi persuadida a reconsiderar a ideia por sua amiga que pediu para que Vivi não desistisse e mandasse o vídeo para o programa, ela mandou quase no fim do prazo. “Por um mês eu deixei o link que ela havia me enviado arquivado e quando faltava apenas uma semana para encerrarem as inscrições foi que eu decidi ver do que se tratava. Resolvi arriscar, gravei o vídeo e mandei”. Após isso sua vida mudou drasticamente, a produção do Esporte Interativo entrou em contato e isso foi só o começo para sua carreira mudar por completo.

Com a vitória no concurso, Vivi alcançou o grande ápice de sua carreira ao narrar um jogo de Champions, feito inédito até então, e na casa do maior campeão da competição, o Real Madrid. Para ela foi um momento indescritível poder representar tantas mulheres que sonham estar ali: “Foi uma mistura de muitos sentimentos. Primeiramente porque eu estava fazendo história, ocupando um lugar que até muitos narradores homens queriam estar e nunca tiveram a chance e ao mesmo tempo, em saber que teria uma grande responsabilidade ali, de representar milhares de mulheres envolvidas com o jornalismo esportivo”.

Para chegar nesse momento preparada para a responsabilidade de narrar um jogo dessa magnitude, Vivi Falconi não teve muito tempo para se preparar, ela conta que foi uma experiência muito intensa na qual precisou absorver toda aquela sensação e ao mesmo tempo se manter focada para desempenhar o seu melhor trabalho. “A sensação de estar no Santiago Bernabéu narrando uma semifinal de Liga dos Campeões com os maiores nomes do futebol internacional é algo quase que inenarrável. Só estando ali para ter noção de todos os sentimentos que te envolvem. Eu não tive tanto tempo para me preparar, foi tudo muito rápido”. Precisando lidar com esse tempo curto de preparação, Vivi procurou aproveitar ao máximo para chegar preparada para o dia do jogo. “Cheguei em Madri domingo de noite, com agenda cheia de compromissos, entradas ao vivo nos programas da casa e tudo mais. Na segunda fomos aos treinos e coletivas dos dois times, o que ajuda na colheita de informações para a partida. Segunda à noite fiz meus estudos e anotações, meus aquecimentos vocais, hidratação e tudo mais. Me preparei com o tempo que tive”.

Logo após essa experiência, Vivi precisou parar suas atividades por um tempo devido a uma lesão que teve ao jogar futebol com suas colegas. Apesar da situação ela conta que a parada não foi tão negativa. “Fiquei em recuperação por 1 mês. Mas não me prejudicou, pois eu ainda estava em processo de assinar contrato com o Esporte Interativo. Foi um tempo pra eu também colocar a cabeça no lugar e administrar tudo o que estava acontecendo comigo após o programa”.

Após esse processo e o encerramento do programa, Vivi Falconi conta que ficou descontente ao saber que não iria mais trabalhar no Esporte Interativo. Mesmo depois de ter sido a vencedora, isso acabou a deixando frustrada, mas não tirando o reconhecimento ao projeto que lhe abriu as portas para o cenário esportivo. “É difícil entender que isso aconteceu da noite para o dia. Eu havia começado a narrar com eles duas semanas antes da notícia. Sinceramente, me senti traída, como a maioria dos profissionais que foram desligados da empresa. Eles fizeram um concurso tão bacana, lutando pela causa da mulher, mas não deram o verdadeiro valor e espaço nem mesmo para a vencedora. Agradeço imensamente a oportunidade do canal e por terem me tornado uma narradora. Mas não posso ser hipócrita ao ponto de falar que não fiquei desapontada com a atitude deles. Fiquei sim, doeu, machucou, mas agora é vida que segue. É seguir com o meu trabalho e buscando novas oportunidades para continuar narrando”.

Vivi Falconi no Santiago Bernabéu (Foto: Arquivo Pessoal/Vivi Falconi)

Servindo como uma referência para as mulheres que sonham ter um espaço maior no âmbito esportivo, Vivi acredita que, apesar de algumas opiniões contrárias, sua experiência ajudou a potencializar a mulher dentro do esporte. ‘’Eu acredito que ajudou a ser um marco sim, por mais que muitas pessoas tentem menosprezar e dizer que não. Se olharmos para o ramo que a narração feminina está tomando hoje, não tem como falar que este não foi um grande marco. Acredito que a partir do Narradora Lays, muitas portas se abriram para as mulheres em outros meios, principalmente nas transmissões via streaming’’.

Considerando isso, Vivi nos contou o que ela acredita que tem que mudar para as mulheres definitivamente terem esse espaço consolidado no esporte. “Acredito que uma das principais mudanças é na nossa cultura em relação ao futebol feminino. Eu não posso querer exigir algo se eu não apoio”. Além disso, ela comentou que um apoio maior das pessoas seria importante para incentivar ainda mais a modalidade. “Porque lotamos o estádio quando se trata de Olimpíadas e nos campeonatos regionais não damos a mínima? Será que não temos que mudar nossa atitude em primeiro lugar? Se as pessoas enchem os estádios, os patrocinadores começarão a prestar atenção, a modalidade começará a ser mais vista e por aí vai. Quando nós tivermos atitudes diferentes poderemos começar a cobrar mais coisas”.

Por fim, Vivi deu um recado para as mulheres que buscam uma oportunidade no meio esportivo. “Não tenha medo de viver os seus sonhos! Em todos os lugares que formos, existirão pessoas que farão de tudo pra te desanimar, pra fazer você voltar atrás e falar que você não é capaz. De tudo o que ouvir, retenha apenas o que é bom. E lembre-se que nenhuma jornada de sucesso é construída só com histórias bonitas, mas com muita ralação, trabalho, personalidade e persistência”.