Torcedora de Arquibancada: A força feminina nos estádios de futebol.

Torcedora de Arquibancada: A força feminina nos estádios de futebol.

16 de junho de 2018 Off Por Jogando Com Elas

O “Passando Pra Elas” é uma coluna semanal, onde abrimos espaço para mulheres, sejam elas torcedoras, jornalistas ou jogadoras, compartilharem um relato ou experiência do seu papel no cenário esportivo. Para inaugurar a série, convidamos Jessica Salini, para relatar a rotina de uma torcedora colorada que sai do interior do Estado e vai até Porto Alegre acompanhar, das arquibancadas do estádio Beira-Rio, o seu time do coração.

Confira o relato de Jéssica:

“Camiseta, moletom, boné, dinheiro, documento, carteirinha, mochila arrumada, cervejas na caixa térmica. Às vezes as 5:00 da manhã, às vezes as 18:00 do dia anterior, geralmente com uma jornada de 6/12 horas de plantão no hospital. Saio do trabalho com olhos cansados, semicerrados e passos apressados. Estar com a mochila pronta não quer dizer que está tudo bem resolvido. Corro para uma casa amiga, tomo um banho, me arrumo, como algo rápido, afinal não temos tempos a perder. Porque sim, se vou ver o amor da minha vida, preciso ser digna com ele.

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Jéssica Salini em jogo no Estádio Beira-Rio (Foto: Arquivo Pessoal/Jessica Salini)

A minha convivência e relação com o estádio Beira Rio é nova, recente, mas o amor pelo futebol e pelo Sport Club Internacional fazem parte de mim desde pequena, desde que ouvia meu pai falar sobre aqueles caras mágicos que faziam a alegria de milhares de pessoas. Eu e a arquibancada já é uma relação mais recente, cerca de 2 anos, mas muito intensa. Ser torcedora e apaixonada por um clube de futebol vai além dos registros que param nas redes sociais.

São mais de 120 km até o lugar que me faz feliz, sair do interior do Estado para acompanhar mais de perto o Inter tem muitos desafios, a maioria deles bem mais do que físicos. Embora tenhamos evoluído muito na questão de igualdade, embora o clube do povo seja orgulhosamente um dos clubes com maior quadro social feminino do país, embora tudo isso e muitos outros pontos positivos, ainda assim se encontram inúmeras dificuldades. Não basta se apresentar como torcedora, não basta demonstrar amor e fidelidade ao teu clube do coração, tens que se fazer digna, apresentar um currículo e capacidade para isso.

Muitas meninas não compreendem táticas de futebol, assim como muitos homens, muitas são movidas pelo amor e pelas emoções mais do que por posições, o que muitas vezes se faz quase inaceitável da parte masculina. A quantidade de vezes que vejo um olhar espantado e que ouço frases do tipo “mas tu entende mesmo?”, como se fosse algo tremendamente anormal, estranho e absurdo – eu mulher e entendedora.

O machismo, o descrédito na força feminina e o assédio ainda são pedras nesse caminho em que as vezes tropeçamos e caímos, mas não são tombos ou feridas suficientes para nos manterem no chão, ou que nos façam desistir de estar ao lado do Clube do Povo. Para ser mulher de arquibancada, é preciso de ainda mais coragem, mais força, mais resistência e, em muitas oportunidades, essa escolha de se fazer sempre presente pelo futebol é dolorosa e pesada, mas a alegria de estar ao lado do clube do meu coração compensam qualquer coisa.

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Grupo de Coloradas em jogo do Internacional (Foto: Arquivo Pessoal/Jessica Salini)

Eu e outras minas, tão apaixonadas a seu modo e intensidade, resolvemos nos unir no final de 2016. Vivíamos uma fase bem difícil na nossa história e resolvemos dar as mãos para bater de frente em nome do Inter, e assim nasceu as Gurias do Inter – Vale do Taquari. No início éramos 7, hoje somos quase 50. Orgulhamos o Inter dentro e fora do estádio, temos força, atitude e muita capacidade.

Somos mulheres brigadoras, brigamos com as negativas masculinas no começo do movimento, brigamos com a falta de apoio, brigamos com trânsito e chuva se preciso for para ir cantar pelo colorado. Diferente de alguns grupos, não somos base ou núcleo de nenhuma outra torcida, somos mulheres que respeitamos umas às outras e a maneira como cada uma escolhe torcer e apoiar. Fora do estádio, fazemos ações sociais, doamos doces, roupas, comida e até mesmo o nosso próprio sangue.

Sou colorada, sou de arquibancada, sou uma Guria do Inter, sou Camisa 12 e sou isso todos dias da minha vida, porque apesar de todas as dificuldades que encontramos no caminho, cada aprendizado só fortalece a minha presença e de outras mulheres no estádio e nas vidas que envolvem o futebol como espetáculo maior.”